«Anatomia da traição»
Não fosse a parte final deste artigo de opinião publicado ontem no «Diário de Notícias», demasiado militante para mim, e eu concordaria com tudo. Com tudo, claro, menos com a parte em que daqui para ali se salta num com perna curta para a eutanásia e o aborto: temas com os quais João César das Neves e eu estamos nos antípodas.
Mas a verdade é que o artigo figurou no meu dia de ontem como uma revelação - há alturas em que pensamos, pensamos, pensamos e não conseguimos verbalizar ou sequer escrever o que com tanto afinco e obsessão pensamos. Até que alguém o escreve por nós, o que felizmente já me aconteceu muitas vezes e de todas a sensação é quente e aconchegante. Como se a existência de outra cabeça no planeta, com a mesma ideia, a tornasse - à ideia - menos solitária.
Foi o que fez César das Neves: pôs por escrito o que andava nas minhas cabeças às voltas como pedaços rarefeitos de algodão doce, que comemos com a ponta dos dedos, mas que nunca agarramos com força.
Aqui fica o agradecimento ao prof. e sobretudo o artigo, que eu escreveria se soubesse escrever assim.
